As inspiradoras manobras de Iago Magalhães

O skatista curitibano de 19 anos é o novo atleta patrocinado pelo EBANX. E a sua história merece tantos prêmios quanto a sua performance nas pistas.

O skatista curitibano de 19 anos é o novo atleta patrocinado pelo EBANX. E a sua história merece tantos prêmios quanto a sua performance nas pistas.

Se a vida pode ser comparada a uma pista de skate, Iago aprendeu muito cedo o que é preciso fazer para dropá-la. Dropar, na gíria dos skatistas, é descer completamente uma rampa sem se desequilibrar. Aos quatro anos de idade, o menino já se aventurava nas pistas do Jardim Ambiental em Curitiba e, na época, ele nem imaginava que a sua coragem e habilidade com o skate o ensinariam tanto a viver, anos depois.

“Eu era um toquinho de gente”, diz Iago, colocando as mãos bem perto do chão. Ele fala da infância com a alegria de quem relembra daquelas tardes atravessando as pistas sem saber que o seu talento seria, em um dia não tão distante, reconhecido internacionalmente. Ele recorda dos tempos de criança arteira com o orgulho de quem sempre teve o apoio incondicional do pai. É impossível ver Iago falar de si mesmo sem mencionar, a cada instante, o seu grande incentivador, insubstituível ídolo e amado pai, Heitor Magalhães.

Sentado em uma mureta ao lado do skate, boné virado para trás, bermuda jeans e meias na canela, o menino brinca o tempo todo e ri de si mesmo como quem não se ofende com as surpresas da vida. Diz que sabe falar árabe e inventa palavras, confundindo os desavisados. No pescoço, um crucifixo. “Ganhei do meu pai”, ele conta. “Na época achei um pouco pesado e guardei, mas esses dias eu estava em casa, abri uma caixa e o crucifixo pulou na minha mão. Entendi o sinal e voltei a usá-lo”. Iago percebe os sinais a todo momento. São como um sentimento bom que surge com a música, o vento e o silêncio, avisando que Heitor continua presente.

Inspiradora história de Iago.  Na pista de skate, segurando o skate ao lado de seu corpo.

Há pouco mais de um mês o menino se despediu do pai, que lutava para viver com um coração não tão forte quanto a vontade de ver o filho brilhar nas pistas. Em seu último ano de vida, Heitor comparecia aos treinos do garoto na cadeira de rodas para não exigir demais do corpo já debilitado. Sabendo de sua condição, ele preparava Iago para quando este precisasse assumir o posto de homem da casa, cuidando da mãe e da irmã. A angústia ao ouvir um desses conselhos dolorosos que parecem precipitados demais a qualquer filho, logo dava lugar à risada leve, provocada por alguma piada que descontraísse o ambiente.

“Vamos apostar corrida?”, Iago desafiava o pai como se não levasse a sério as suas limitações físicas, ao que recebia como resposta: “Você está de brincadeira comigo, né, seu jaguara?”.

Nada traduz melhor a amizade entre os dois do que a frase que o garoto tem tatuada nas costas: “Só Alegria”. Heitor abandonou a profissão como vendedor para se dedicar exclusivamente à carreira do filho. A decisão aconteceu por volta dos sete anos de Iago, naquela mesma pista do Ambiental. Ao perceber que o garoto se destacava no skate, ele fez-lhe a pergunta que traçou um destino inteiro, ou melhor, dois destinos: “É isso que você quer?

Era isso.

Heitor acompanhou a trajetória de Iago tombo a tombo, pódio a pódio. “Treinávamos todos os dias, sem exceção. Se chovesse, a gente secava a pista e eu andava mesmo assim”, conta o atleta. O incentivo do pai vinha nas formas de torcida, conselhos, inscrições em campeonatos, compra das melhores peças de skate e uma inseparável companhia em todos os treinos. O sonho de um se tornou o sonho do outro.

Iago de boné para trás, na calçada, segurando o skate próximo ao corpo.

A recompensa do esforço em conjunto veio a galope, ou melhor, a dropadas. Hoje, aos 19, Iago Magalhães é um fenômeno do skate, com mais prêmios do que anos de vida. Ele já representou Curitiba em campeonatos dentro e fora do País e agora também vai levar o nome do EBANX, patrocinador oficial do atleta.

A primeira conquista internacional aconteceu em 2015, quando Heitor viu Iago despontar nas pistas de Los Angeles, na Califórnia, conquistando o terceiro lugar no Vans Amateur Combi Pool. No início de 2017 o atleta voltou a participar desse mesmo torneio junto aos melhores skatistas do mundo, incluindo um dos seus ídolos, o norte-americano Bucky Lasek. “Esse era o meu sonho desde pequeno e se tornou o sonho do meu pai também. Conseguimos realizá-lo em nossa última viagem juntos”, relembra.

Iago quer mesmo é ser campeão mundial. “O meu pai dizia: seja campeão mundial uma vez e depois ande para você, faça as manobras que quiser e não se cobre tanto”, conta. Ele segue o conselho e vislumbra a conquista todos os dias enquanto treina na velha e boa pista do Ambiental, de preferência sem camisa, que é como se sente confortável para andar de skate. Essa mania lhe rendeu um apelido na Califórnia: Brazilian Tarzan, o Tarzan Brasileiro.

Prédios ao fundo, Iago apenas gesticulando e sorrindo.

Curiosamente Tarzan é um apelido que se encaixa perfeitamente ao garoto, não pelo detalhe da camisa, mas porque Tarzan é uma referência de coragem e lealdade, que está sempre pronto para defender os seus. O homem da selva é brincalhão, mas também é um guerreiro. Tarzan sabe pular as árvores ou driblar os obstáculos equilibrando-se apenas em cipós… ou em um skate. Tarzan luta contra os inimigos da floresta, Iago contra os imprevistos da vida. Ambos fazem manobras emocionantes, giram no ar, correm sem medo e se jogam em movimentos ousados que levam o público à loucura e aos aplausos.

Em agosto, quase um mês depois de ter completado 20 anos (no primeiro aniversário sem o pai), o atleta quer participar do Vans Park Series Continental 2017 na Ásia. Nenhum nervosimo, apenas a preocupação de ficar longe da mãe e da irmã, pelas quais ele nutre um sentimento forte de proteção. Tão forte que Iago não pensa em morar em nenhum lugar do mundo sem a companhia delas.

Eis a maior das manobras desse skatista: assumir com leveza as novas responsabilidades que a vida lhe apresenta. Aceitar os desafios com a maturidade de quem é, ao mesmo tempo, um jovem que ama a liberdade do skate e um filho com saudades do pai, determinado a cuidar da família. “Eu sou o homem da casa”, ele afirma. “Tem coisa melhor do que isso? Fazer de tudo por quem você ama?”, pergunta.

Se a vida pode ser comparada a uma pista de skate, cheia de altos e baixos, tombos e vitórias, Iago entendeu exatamente o que é preciso fazer para viver como um vencedor.

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